Os portugueses começam o novo ano com uma escolha que surge no fim de um ciclo eleitoral pesado em que, em cerca de dois anos, tivemos duas eleições parlamentares, europeias, autárquicas e, agora, presidenciais. Cada uma delas transporta significados próprios e proporciona opções específicas aos eleitores.
O panorama político nacional, que resulta da escolha dos cidadãos, é hoje completamente diferente daquele a que estávamos habituados desde há muito tempo. Historicamente, um dos dois partidos, entre o PS e o PSD, era o maior sendo o outro o segundo. Actualmente isso não se verifica com o PS a ocupar o terceiro lugar, abaixo do Chega. Trata-se de uma alteração profunda, com muitas implicações mesmo a nível institucional, com a Assembleia da República incapaz de preencher lugares no Tribunal Constitucional, no Conselho de Estado e mesmo de preenchimento da Provedoria de Justiça.
A eleição do próximo Presidente da República reveste-se, assim, de uma importância acrescida dado que, embora os poderes presidenciais sejam limitados no nosso sistema político, se trata da única eleição personalizada. O próximo Presidente da República, na nova situação descrita poderá, e deverá, ser capaz de desfazer o nó político, com capacidade de decisão e independência relativamente aos partidos principais. O complexo panorama internacional de que a invasão russa da Ucrânia e a intervenção militar americana na Venezuela são exemplos, exige igualmente conhecimento e uma consciência amadurecida, para além de bom senso.
Provavelmente como acontece com a maioria dos portugueses comuns, a pré-campanha serviu para eliminar da minha escolha alguns candidatos, restando nesta altura a opção entre dois finais. A campanha servirá para afinar a escolha final, na consciência de que haverá certamente uma segunda volta entre os dois candidatos mais votados no próximo dia 18.
A pré-campanha foi muito marcada por tentativas de, mais uma vez, trazer a Justiça para a política. Felizmente, as tentativas foram rapidamente paradas pela PGR, restando a parte ética, que não criminal, das actuações dos candidatos ao longo da sua vida. E temos de convir que o conhecimento desse aspecto dos candidatos é verdadeiramente importante para uma escolha tão importante para a nossa vida colectiva futura.
Durante a pré-campanha foram também visíveis confusões entre os poderes do Presidente e as opções políticas da governação, ao contrário do que a própria Constituição define. Se os candidatos querem definir as opções sobre Saúde, Habitação, Educação, etc. que se candidatem a Primeiro-ministro! Claro que é mais fácil fazer afirmações gratuitas sobre as políticas governativas do que ser claro sobre o exercício dos poderes presidenciais, mas também isso nos dá indicações sobre as verdadeiras intenções dos candidatos.
Resta olhar para o exercício das funções presidenciais pelo Presidente que sai, Marcelo R. de Sousa. Ao contrário do que desejaria, Marcelo sai com uma taxa de aprovação apenas ligeiramente acima da de reprovação. Claro que a História exige um distanciamento temporal para uma precepção suficientemente rigorosa de uma actuação presidencial, pelo que será necessário aguardar alguns anos para se perceber qual o verdadeiro valor de Marcelo como Presidente da República.
Publicado originalmente no Diário de Coimbra em 5 Janeiro 2025